1.3.16

Após horas me odiando e me sentindo a pior das criaturas existentes, pensando que não há solução que me encaixe no mundo, percebi que não preciso de licença para estar aqui. Não devo a minha vida a alguém e ela não tem menos valor que qualquer outra. Não preciso me identificar com os seres humanos, não preciso olhar no espelho um outro ser igual a mim. Posso me identificar até mesmo com um grão de areia, que está lá embaixo d'água, se agitando e se revirando, se dissolvendo e se agrupando, indo e voltando, no mesmo balanço que nunca é igual, no fim tudo é pó de estrela. Antes pensava na matéria como algo que está sempre morrendo, em decomposição, e me incomodava reduzir a existência, a vida e a morte, a tão pouco. Até mesmo a necessidade de pensar em outra vida após esta, ou a dor que causava a dúvida sobre deus, se desfizeram. Tenho certeza que há outra vida após esta porque tudo é pó de estrela, e permanecemos aqui, adubando a terra, virando e desvirando grão de areia, grão de mar, estrela do mar. Da terra brotam sementes, raízes procuram o fundo, minhocas escalam umas as outras, o cheiro e a cor são ilusão, a morte também.

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