4.7.11

Há sim um tempo para nós, um espaço. Uma palavra, um perfume, uma música, um alerta sonoro, qualquer coisa que se relacione a você toca meu corpo, arrepia pelos, traz a lembrança das suas mãos - até as lembranças que eu inventei - e vontade de lhe reviver. A vontade devastou meu medo como uma tsunami, não deixou sobrar qualquer dúvida. Sei que quando abrirmos a porta, depois de uma noite calma, o mundo nos sugará, repelindo e lançando cada uma para um lado, mas eu já não me importo. Venha agora que eu digo sim.  Fico observando a noite caindo, as palavras se esgotando porque já não são suficientes para expressar e eu sempre fico com vontade de dizer mais, que te amo. Vou embora e em casa, longe, perto de mim, tudo se transforma, tem a fragilidade da tinta descascada, das rachaduras e pontas afiadas dos vidros, dos fios desfiados das roupas de lã. São curtos os instantes que permanecem intactos - antes do cenário se desfazer com as cortinas dos meus pensamentos - mas por sorte são muitos. Algo resiste à noite, algo sobra dos dias, algo fica imóvel para assombrar e, por ironia, me fazer amar a vida.

Estranho, perdi o medo.

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