18.6.11

Era uma cópia sua, mas tinha elegância. Vinha descendo a rua com uns óculos antigos de lentes amareladas, o que denota zelo com o seus pertences, diferente de você que é descuidado e coloca fogo nas coisas, às vezes. Eu ainda lhe vejo nas pessoas que caminham pelas ruas do centro da cidade, atravessando a rua ou falando ao celular na esquina democrática. Eu ensaio a minha fuga no dia que lhe encontrar, mesmo sabendo que talvez você não me reconheça, por que para você eu ainda sou aquela criança boba. Os vícios que me destroem lentamente, que eu mantenho com carinho e sede, sei que são para me manter próxima a você e, também, para não esquecer a pessoa que um dia eu fui. As pessoas não sabem quem um dia eu fui, o sorriso que eu tinha, por que eu era forte por estar enfrentando ainda muito crua as dificuldades da vida e, mesmo assim, eu me regenerava rapidamente. Eu não esqueço o mínimo que fazem por mim, eu me alimento de migalhas de lembranças, eu tenho memória fotográfica, por exemplo, eu cultivo a memória das flores desenhadas no par de meias de um certo alguém ou do contorno do seu corpo quando voltava para a cama na contraluz. O que as pessoas que passaram - começando por você - formaram: esta, que restei. Carrego comigo as experiências que tive com as pessoas que eu escolhi, desde sempre, carrego as marcas das minhas quedas, dos meus erros, mas nem todas as experiências me formam, eu também sou cristalina (a do sorriso, a forte, a esperançosa), há uma parte dos meus pensamentos que ainda é livre de impressões. Há uma parte que eu protejo, guardo. Uma página por escrever. Uma história que ainda vai se modificar muitas vezes.

Nenhum comentário: