20.4.11

Quando abro a janela - este raro movimento de abrir, geralmente realizo o movimento contrário - à noite e sinto o ar quente que vem da rua, os cheiros variados do centro da cidade, o burburinho dos passantes voltando pra casa depois do trabalho, as senhoras voltando do supermercado, os jovens - alguns nem tão jovens assim - reunidos em frente aos bares conversando e rindo, sinto vontade de trocar de roupa e sair, sem pensar. Penso, vou fazer um movimento brusco, impulsivo e arriscado. Sair caminhando, entrar em algum bar e comprar uma bebida. Lembro de certa vez, a última em que senti esperança e por isso é que não esqueço, quando tomei um banho demorado, sozinha no apartamento, usei um hidratante de lima - que, aliás, nunca mais encontrei pra vender - e tive a sensação de que tudo era possível. Tudo o que aconteceria era uma deliciosa incógnita. Diferente de hoje em dia, quando tudo é previsível, por que já decorei os movimentos, depois de tantas desilusões. Minha pele era sedosa, meus cabelos mais compridos, acho que estava uns quilos mais magra, tinha comigo uma juventude que quando lembro sinto inveja de mim mesma. Tinha a faísca acesa da juventude que acredita que tudo é possível, que amor existe, que tudo na vida vai acontecer. Um sentimento não tão intenso quanto o de agora, mas belo pela sua ingenuidade. Eu fui ingênua mais algumas vezes depois disso, porém algo ficou quebrado desde aquela noite. Os sentimentos de hoje são mais difíceis de suportar, são labaredas - no fundo fico feliz por ser forte o fogo que queima - e o cheiro não é de lima (perfume que se extinguiu junto à inocência), a lágrima não é tão salgada, é diluída, o coração tem as portas entreabertas - o vento sopra forte, às vezes - e desacredita. Não dá pra negar, tudo não é possível, mas nada é impossível.

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