3.3.11

Sou presa aos detalhes, pela dureza da vida e do meu passado, aprendi a apreciar a sutileza dos gestos tímidos, dos olhares, das faces ruborizadas, dos toques. Carinhos de olhos proibidos as bocas, força das mãos macias. Gostava da forma como agarrava minha mão para soltar em cima da sua perna, que se eu retirasse buscava novamente e repetia o gesto, como se quisesse enraizar seu amor em mim e o meu amor num corpo só. Gostava da forma como separava as minhas pernas com suas pernas, de quando em público seus joelhos acariciavam a parte de trás dos meus, me fazendo implorar em silêncio para por fim à minha angústia. Eu jogava toda a minha angústia - como uma enxurrada - naqueles momentos, todo o meu ser que fica escondido lutando para sobreviver. Gostava do cheiro do perfume, que me lembrava roupas limpas estendidas no varal. Parecia tão simples, mas não era.

Falto com a verdade em tudo que falo e escrevo, a verdade está no que penso e sinto, antes de se transformar em palavras. O que eu sinto mesmo só conheço em sons, cantos, sussurros, gemidos, gritos, uivos. Os sentimentos existem desde antes do nascimento da linguagem, desde antes do nosso próprio nascimento. Desde antes da invenção do amor romântico. As letras do alfabeto se esforçam e tentam humildemente expressar, mas não conseguem, fica sempre falso e incompleto.

Há dias em que gostaria de silenciar completamente.

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