21.4.10

"Estou transfigurando a realidade - o que é que está me escapando? por que não estendo a mão e pego? É porque apenas sonhei com o mundo mas jamais o vi." (Clarice Lispector)

Eu fui embora pensando que se encontrasse qualquer rosto conhecido pelo caminho me desmancharia. Quem sabe seria abraçada, braços ao redor, um peito no meu peito, coração no meu coração acertando o ritmo das batidas, me apertando de forma que me obrigasse a respirar. Chovia e era noite, mesmo assim retirei os óculos escuros da bolsa, as lágrimas escorriam por baixo das lentes, transfiguravam meu rosto, de um jeito que só se veria em um filme do Almodóvar.

Mentira. Eu fui embora como sempre, com um certo tremor no corpo, controlando o choro. Não encontrei ninguém no caminho, era só como sempre fui. Os óculos escuros não estão mais na minha bolsa, quebraram no verão e eu não comprei novos. Resolvi pegar um caminho diferente, no meu íntimo torcia para que algo se sucedesse, uma queda, um acidente, qualquer coisa que me deixasse chorar tudo que estava contido, gritar o que estava preso nos meus pulmões... desde que nasci. Nada aconteceu, continuo gritando por dentro.

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