12.8.08

Choveu

E eu acordei de um pesadelo que nem lembro direito, mas com umas lembranças bem vivas da época em que passava as férias de verão na praia, sempre no mesmo lugar, talvez a época mais divertida da minha vida. Imagine o que é pra uma filha única estar cercada de primos e outras crianças, muita bagunça.

Eu era bem pequena quando me inventaram um namoradinho, deviam nos achar bonitinhos juntos e, de fato, devíamos ser. Depois, esse namoradinho veio a me escrever muitas cartas com declarações de amor, me dar presentinhos e doces. Mas nós dois não nos sentíamos muito confortáveis com a situação, nós morríamos de vergonha um do outro, quase não conseguíamos conversar, nunca sequer nos beijamos no rosto, ao menos eu não lembro disso. O legal era escrever as cartas, as minhas eu mesma fazia, cheias de espontaneidade, desenhos... Provavelmente cheias de corações (será que ele guardou?). Eu colocava debaixo da porta do apartamento dele, apertava a campainha e saía correndo, minha prima me ajudava nisso, ela estava sempre junto. As dele eram entregues pela janela e eram superbem escritas, alguns anos depois eu descobri que não era ele quem as escrevia, mas um amigo um pouco mais velho, por quem obviamente eu fui me apaixonar em seguida, quando também fiquei um pouco mais velha.

Com o tempo eu fui cansando daquele “namoro”, queria liberdade, ele não me deixava dançar com outros nas reuniões dançantes! Só podia dançar com ele, tínhamos até uma música: Take my breath away. Então, cansada dessa fidelidade sem sentido, eu terminei o namoro, também por carta, mas dessa vez estava na cidade, bem longe, já era adolescente praticamente. Ele me ligou furioso cobrando explicações, que eu naquele momento não consegui dar, jamais imaginei que ele me ligaria, não achava que ele tinha atitude pra isso. Meses depois, já na praia, discutimos a relação pela primeira e última vez. Lembro muito bem, nós dois sentados na mesa da churrasqueira, aquele pátio vazio e silencioso, o que era um verdadeiro milagre, parecia encomendado, e uma chuva fina também providencial. Horas olhando um pra cara do outro, até que ele falou, queria saber o motivo. E eu disse, do alto da sabedoria dos meus doze anos de idade: É que no fundo nós dois sempre fomos apenas amigos.

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