26.7.08

Uma silhueta, uma forma, um ar?


Time (Shi Gan) - Kim Ki Duk

Cruzo-me, ao longo da minha vida, com milhares de corpos; desses milhares posso desejar umas centenas; mas, dessas centenas, não amo senão um. O outro por quem estou apaixonado mostra-me a especialidade do meu desejo. Tal escolha, tão rigorosa que apenas contempla o Único, estabelece - diz-se - a diferença entre a transferência analítica e a transferência de amor; uma é universal, a outra é específica. Foram precisos muitos casos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas tentativas), para que eu encontrasse a imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Aí está um grande enigma cuja solução jamais conhecerei: por que razão desejo eu aquele Tal? Por que razão o desejo duradoiramente, languidamente? Desejá-lo-ei como um todo (uma silhueta, uma forma, um ar)? Ou não será apenas uma parte do seu corpo? E, nesse caso, o que é que tem, neste corpo amado, a vocação de fetiche para mim? Que parcela, talvez incrivelmente tênue, que acidente? O corte de uma unha, o dente um pouco partido em bisel, uma madeixa, uma forma de separar os dedos ao falar, ao fumar? Sinto vontade de dizer que todos estes jeitos do corpo são adoráveis. Adorável quer dizer: isto é o meu desejo, sendo certo que é único: "É isso! É exactamente isso (que eu amo)!". No entanto, quanto mais conheço a especialidade do meu desejo, tanto menos a posso denominar; à certeza do alvo corresponde um estremecimento do nome; o que é próprio do desejo não pode determinar senão o que é impróprio do enunciado. Deste insucesso linguístico apenas fica um vestígio: a palavra "adorável" (a boa tradução de "adorável" seria o ipse latino: é ele, é mesmo ele em pessoa).

(Roland Barthes em Fragmentos de um discurso amoroso)

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