9.7.08

Curar a alma por meio dos sentidos e os sentidos por meio da alma

Dizem que as paixões obrigam nosso pensamento a caminhar em círculo vicioso. Realmente, com terrível insistência, os lábios de Dorian Gray murmuravam e tornavam a murmurar com amargor as palavras sutis que se referiam à alma e aos sentidos, até que ele encontrou sua expressão plena e profundo sentido, como se se identificassem com seu estado de espírito e justificassem, por aprovação intelectual, as paixões que, sem aquela justificação, continuariam dominando seu temperamento. Um único pensamento se arrastava de uma célula a outra de seu cérebro; e o desejo selvagem de viver, o mais terrível de todos os apetites humanos, excitava energicamente cada nervo trêmulo, cada fibra de seu corpo. A fealdade, que tantas vezes havia ele detestado por tornar as coisas mais reais, agora lhe parecia aceitável pela mesma razão. A feiúra era a única realidade. As disputas grosseiras, os antros repugnantes, a violência crua de uma vida desordenada, a baixeza dos ladrões e dos criminosos, tudo isso possuía mais vida, em sua intensa realidade de impressão, do que todas as formas delicadas da Arte, do que as sombras sonhadoras da Poesia. Era tudo isso que ele necessitava para esquecer. Dentro de três dias, sentir-se-ia livre.

(Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray)

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