29.6.08

No meio da noite, em uma casa escura, em algum lugar do mundo...


Cenas de um casamento (Ingmar Bergman) - Diálogo final


- O que provoca os pesadelos?
- Talvez algo que você tenha comido.
- Você acha?
- A menos que haja algo em seu mundo ordenado que não acessa.
- Abrace-me, estou tremendo, ainda que esteja com calor. Devo estar com alguma coisa. As meninas estiveram doentes.
- Você já vai se sentir melhor.
- Puxe as cobertas.
- Com o que sonhava?
- Atravessávamos uma estrada perigosa. Eu queria que você e as meninas ficassem comigo. Mas minhas mãos desapareceram. Eu só tinha tocos. Estou escorregando na areia, não consigo alcançar você. Você está na estrada e eu não o alcanço.
- Que sonho terrível.
- Viveremos em completa confusão?
- Você e eu?
- Não, todos nós.
- Como assim?
- Estou falando do medo, incerteza e ignorância. Você acha que no fundo tememos despencar... e não sabemos o que fazer?
- Acho que sim.
- É muito tarde?
- Sim. Não devemos falar essas coisas, só pensar nelas.
- Johan, perdemos algo importante?
- Todos nós?
- Não, você e eu. Ás vezes, consigo ler sua mente... e sinto tanta ternura que me esqueço de mim... sem ter que me obliterar*. É uma sensação nova, você entende?
- Entendo.
- Johan? Às vezes sofro por nunca ter amado ninguém. Acho que também nunca fui amada. Isso me angustia.
- Agora está sendo dramática. Eu sei o que sinto. Te amo à minha maneira egoísta. E acho que você me ama... à sua maneira atarantada e incômoda. Nos amamos de forma mundana e imperfeita. Mas você é tão exigente.
- Sou sim.
- Mas aqui estou, no meio da noite, sem muita fanfarra... em uma casa escura, em algum lugar do mundo... com meus braços ao seu redor. E seus braços ao meu redor. Não sou dos homens mais compassivos. Não tenho a imaginação necessária para isso. Não sei como é meu amor, não consigo descrevê-lo. Na maior parte do tempo, não consigo senti-lo.
- E você acha mesmo que eu também te amo?
- Acho. Mas se insistirmos nessa tecla, nosso amor vai se evaporar.
- Vamos ficar assim a noite toda.
- Não, não vamos.
- Não?
- Uma perna adormeceu e meu braço esquerdo está quase deslocado... estou com sono e minhas costas estão geladas.
- Então vamos nos aconchegar.
- Vamos.

* Obliterar: Fazer desaparecer progressivamente, mas deixando alguns vestígios, desgastar, obscurecer, macular de propósito, tapar uma cavidade ou canal.

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